VERSÃO... MAGA! 1 de 2 [ >>página 2 ]
GRAVADA NOS ESTÚDIOS DA MARSHMALLOW OU NÃO,
A DUBLAGEM CLÁSSICA DAS SÈRIES CH DEIXA SAUDADES ATÉ HOJE.

Marcelo Gastaldi fala no programa Sem Censura, da TVE (Fã-Clube Chaves e Chapolin/ Reprodução)O que raios é "Versão Maga" ? E o que isso tem a ver com Chaves? Tudo.
É o crédito da dublagem em português, uma frase que nunca vai ao ar em Chaves e Chapolin (nem no Snoopy, tudo cortado pelo SBT), a menos que você tenha visto algum deles em vídeo ou assistido a série "Super Ted" (exibida pela Rede Globo.) Clique aqui para ver quem dublou quem em Chaves e Chapolin. Mas em outubro de 2005 o crédito da dublagem vazou em um episódio.

Marcelo Gastaldi"Maga" vem do nome do criador da empresa, o dublador Marcelo Gastaldi. Um estúdio de dublagem "sem estúdio" que funcionava dentro da antiga TVS, veja mais adiante.
E porquê essa pontuação estranha no título? Aí eu digo... na maioria das vezes era o próprio Gastaldi que narrava esse crédito, e quando não era um programa sério ele fazia um estilo de locução dos mais loucos possíveis. Os que viveram os anos 80, puxem pela memória e tentem se lembrar de como Gastaldi anunciava o desenho do Snoopy, por exemplo... O crédito do desenho Raccoons, exibido pela TV Record em 1995, também seguia essa linha.

Apesar da dublagem de Chaves e Chapolin ter mais de 20 anos, foi uma das primeiras onde os dubladores gravam suas partes um de cada vez, com equipamentos que tinham acabado de ser desenvolvidos, para fazer dublagem a partir de vídeo, no sitstema U-Matic. Até então as dublagens eram feitas em equipamentos cinematográficos.

Em 1979, em um lugar na Via Anhanguera - que não sabemos se é onde o SBT se encontra atualmente - usado como centro de processamento de dados do Grupo Silvio Santos, foi criado o núcleo de dublagem do SBT. Apesar de ficar em São Paulo, ele trabalhava para a TVS Rio - a emissora ainda não existia em Sâo Paulo. Nesse ano, portanto, surgia a dublagem em VT no Brasil. O estúdio era dirigido por José Salathiel Lage e tinha como diretor técnico um certo Alberto Cortez ("Mas Cortez não se chamava Alberto!...") - curiosamente homônimo do diretor da novela Viviana, em Busca do Amor, da Televisa, levada ao ar no México em 1978, será que é ele mesmo?
As primeiras dublagens eram de programas especiais (desses que o Sìlvio gostava de comprar no exterior) como shows de David Copperfield e seriados como Show da Lucy, vindo logo em seguida as novelas, como Os Ricos Também Choram e Chispita. Aliás, Show da Lucy, com Lucille Ball, foi extremamente reprisado pelo SBT e chamava a atenção pelas piadas extremamente adaptadas, muito mais do que as de Chaves e Chapolin.

Você pode notar que as primeiras sitcoms norte-americanas dubladas e em video só estreariam em 1986, na Rede Globo, como Super Gatas, O Poderoso Benson (dubladas pela Herbert Richers) e Super Vicki (dublada pela BKS, com Dráusio de Oliveira, Sandra Campos e Hermes Barolli), antes disso eram todas em película, como Duro na Queda, Magnum, Dama de Ouro, Casal 20, etc... lembre-se que a Herbert Richers, antes de mais nada, é um estúdio de cinema! Antes disso, somente Chaves, Chapolin e as novelas mexicanas do SBT eram em vídeo e dublados (fora séries como O Elo Perdido).
Nisso, portanto, o SBT foi pioneiro! Apesar de a dublagem em vídeo ser muito mais difícil por ser monaural (mono): alguns efeitos sonoros tinham que ser feitos em tempo real... isso fora o playback de algumas das músicas tendo que ser feito por músicos ao vivo - mas do lote de 1990 em diante já não era mais assim.

Outros dubladores QUE FIZERAM PONTAS NAS SÉRIES CH
Eleu Salvador
, falecido em 2007 (Christopher Lloyd em "De Volta para o Futuro") dublou Raul Padilla na segunda versão do episódio "Transplante de cérebros" e os personagens do ator nos episódios do Chespirito da CNT. Em sua primeira aparição no lote de 1984, Raul é dublado por José Soares.
Élcio Sodré (Kamen Rider Black RX, Rocko)dublou o Godinez em apenas um episódio, quando ele pergunta insistentemente pro Prof. Girafales: "Por que, se ainda não começou a aula?..." além do personagem de Horácio Bolaños em "Aventuras em Marte" (um diretor de um centro espacial que protagoniza o hilário diálogo pelo telefone: "Alô, é de Júpiter? Eu quero falar com o José... Quem? O José, da camisa azul!..."), além de todas as participações de Horácio Bolaños no lote de 1992 de Chapolin (exibido esparsamente entre 2005 e 2007 pelo SBT). Pra mim, Élcio já deveria fazer parte dos eventos CH...

Hector Bonilla
e Seu Furtado, dois coadjuvantes de presença marcante em "Chaves", foram dublados por Luiz Carlos de Moraes, um ator que costuma ter personagens marcantes em algumas novelas atuais do SBT, mas que também atua bastante como dublador. Leda Figueiró dublou a Patty, antes de Cecília Lemes - outros papéis conhecidos dela são Isaura (Sally), irmã do Charlie Brown, a Maroca do programa Bozo, a vilã do desenho Ursinhos Carinhosos na dublagem mais antiga e o Gato Félix na versão mais recente. Dráusio de Oliveira, um dos grandes nomes da dublagem paulista, dublou José Antônio Mena, o astronauta "desconhecido" do episódio Planeta Vênus versão 1. E Orlando Viggiani (Michael J. Fox em De Volta para o Futuro)fez um dos papéis mais inusitados de sua carreira em Chaves: o de locutor de futebol, no episódio do curto-circuito, narrando uma partida "brasileira" totalmente de improviso. Bem, ele também faria isso no quadro do goleiro Mallandrowsky, alguns anos depois...

Potiguara Lopes, a primeira voz do Prof. Girafales, faleceu em 23 de maio de 1999 - segundo a Wikipedia, após dar uma entrevista para a televisão - no entanto, não há imagens suas em lugar algum. Mário Vilela faleceu em dezembro de 2005, tendo como último trabalho não lançado a dublagem de algumas cenas do DVD da Amazonas Filmes, no qual acabou sendo substituído. Ele já dublava com uma certa dificuldade para respirar, embora a voz estivesse intacta. Nelson Batista (Al Bundy, Jerry Lewis, guarda Smith do Zé Colméia ) dublou Ramiro Orci no episóido "Para fugir da Prisão". Olney Cazarré (Pica Pau, acreditem) dublou José Luis Amaro, o policial do episódio da exibição de ioiôs.

O produtor musical (e ator, antes que o SATED reclame) Mário Lúcio de Freitas dublou Godines e alguns personagens do ator Ricardo de Pascual em "Clube do Chaves", como o Sr. Navarro, um velhinho hilário que só ele. Mas na série clássica ele também teve algumas participações marcantes, como o dono do parque de diversões (Abraham Stavans).

Mais detalhes sobre os demais dubladores, os que ficaram por mais tempo, veja na página 2.

Curiosamente, nenhum outro seriado reuniu mais dubladores de Chaves do que a série japonesa Spectreman: Marcelo Gastaldi, Carlos Seidl, Osmiro Campos e Mário Vilela faziam parte do cast de dubladores de Spectreman, um seriado que, assim como Chaves, também marcou a infância de muitas pessoas. Spectreman foi dublado pela Elenco, mas nos mesmos estúdios usados pela Maga, dentro do SBT da Vila Guilherme. Veja mais sobre os dubladores das dublagens mais recentes na próxima página e nas outras seções.

Marcelo Gastaldi: o primeiro dublador de Chaves e Chapolin
"Então vou falar em sua língua: Abusai e te bato nakara!"

"Matsubara, pó de mico!"
(Chapolin tentando se expressar em japonês... Matsubara é um time de futebol brasileiro, que nada tem a ver com o Japão.)

"Eu sei que hoje há mulheres que estão trocando o papo pelo sopapo..."
Chapolin e seu vocabulário extenso

"Eu tenho uma pregunta, pois é importante fazer preguntas!
(...) A pregunta? A pregunta? Ih, ESQUECI A PREGUNTA!!"
(Um aluno do colégio onde estuda Linus tenta falar com ele por telefone em um episódio de Snoopy.)

"Ptolomeu é a minha dinastia."

"Ah, a sua tia!"
A última frase nem sequer foi dita por Chespirito no episódio original.

Boa parte da graça do Chaves e do Chapolin "clássico" se deveu a seu dublador, Marcelo Gastaldi, (falecido em 1995, aos 50 anos) que, entre outras coisas, também fez a voz do Charlie Brown (na versão dos anos 80), do Super-herói Americano, do protagonista de "A Hora do Espanto 1", e de um personagem do desenho "Trio Calafrio" da Hanna Barbera, além de cantar a música The Bright Side of Life (Olhe sempre pro lado bom da vida), do Monty Python, em português, no filme "A vida de Brian". Entre várias outras coisas...

Além de dublador, Gastaldi também era cantor, letrista e compositor. Nos anos 60, junto com Appolo Mori (hoje policial), Mário Lúcio de Freitas, (produtor musical, futuro fundador dos estúdios Marshmallow e Gota Mágica) e o cantor Antonio Marcos (ex-marido da cantora Vanusa e pai da também cantora Aretha, falecido em 1991), formava a banda Os Iguais. Talvez seja por isso que ele cantava, mesmo como dublador... Não só como Chaves e Chapolin, mas como o PC da série Popples e até mesmo como um dos integrantes do Monty Python, como você viu. Mas aparentemente isso surgiu em sua vida depois da dublagem.

Como ator, Marcelo Gastaldi participou de três seriados de TV nos anos 60 e 70, seu último trabalho como ator, de acordo com o site IMDB, foi Sombras do Passado, a primeira novela produzida pelo SBT, em 1983 (nessa época ele já estava dublando os primeiros episódios do Chaves). Gastaldi também cantou o tema da novela seguinte, "Desprezo".
Ao lado, alguns dos improvisos de Marcelo Gastaldi em dublagens que fizeram a gente rolar de rir. E mais um exemplo aqui: no episódio em que Chaves e Quico cobram pênaltis, Chiquinha pergunta o que é "coronistra" [cronista, no caso, como se chama em espanhol o locutor de partidas de futebol], e Chaves responde "O coronistra, aquele que fica co micofrone, parece até que eu tô falando guegro!" Resposta de Chaves no original: "Você não sabe espanhol?..." É, tinha que ser o Maga!

Marcelo Gastaldi se tornaria dublador nos anos 60, no estúdio AIC São Paulo, aos 15 anos de idade. Mas quando as séries CH apareceram em sua vida ele já tinha uma certa experiência nisso, a ponto de orientar novos talentos que surgiam, como Cecília Lemes.
Gastaldi teve uma excelente escola, portanto. O estúdio funcionava 24 horas (coitados dos vizinhos da hoje BKS - se bem que alguns deles eram os próprios dubladores que trabalhavam na AIC), e haviam dublagens que eram feitas cerca de 2 horas antes dos episódios irem ao ar. Uma verdadeira loucura, que o pessoal daquela época dava conta.

Gastaldi também compôs músicas, junto com Mário Lúcio, no conjunto Os Iguais, e até mesmo depois disso, como "Anjo bom", tema brasileiro da novela Chispita. Digamos que quando eu conheci a música original, do conjunto Timbiriche, essa não me chamou tanto a atenção.

Marcelo Gastaldi no começo dos anos 80, em um teste de vídeo exibido no Festival da Boa Vizinhança
Marcelo Gastaldi em um teste de vídeo, no qual dublou a si mesmo, nos estúdios da TVS . É provável que aqui estivesse nascendo a "MAGA". Mário Vilela também fazia uma ponta, com uma daquelas piadas que ele contava pra todo mundo. Ao final, Gastaldi agradece ao diretor Salathiel Lage. O vídeo foi cedido por Mário Vilela em 2005 ao Fã-Clube Chespirito Brasil e mostrado no I Festival da Boa Vizinhança.

NASCE A "MAGA", E ESTA AQUI
NÃO QUER A MOEDA NÚMERO 1 DO TIO PATINHAS

   computação gráfica   A Maga Produções Artísticas foi a empresa que dublou Chaves e Chapolin, e foi um dos estúdios independentes de São Paulo, que surgiram da seguinte forma:
A primeira greve de dubladores do Brasil foi em 1977 e durou seis meses. Com o fim da greve, que atingiu os estúdios de Rio e São Paulo, muitos dubladores não quiseram voltar aos antigos estúdios e fundaram cooperativas independentes nas quais tinham atendidas suas reinvindicações. As cooperativas duraram pouco no Rio, mas em São Paulo duraram um pouco mais devido ao apoio de uma emissora de televisão: o SBT (TVS, na época).
Em São Paulo, a Com-Arte fazia dublagens nos próprios estúdios da TVS, dublando quase todo o material dublado visto nessa emissora (como a série Spectreman), pouco tempo depois, surgia o estúdio Elenco, de Felipe Di Nardo (essa Elenco não tem nada a ver com a gravadora que lançou a bossa nova nos anos 60).
Ambas as cooperativas recebiam total apoio da TVS, inclusive recebendo desta equipamentos de última geração, tão bons quanto os da Herbert Richers. Pelo visto - ou melhor, pelo ouvido - Gastaldi já dublou nessas duas, Elenco e Com-Arte.  Nas primeiras dublagens da Maga, era dito: "Versão Maga, gravado nos estúdios da TVS" (como recentemente vazou em um episódio do Chaves, em outubro de 2005).
A Maga nunca teve estúdio próprio - nas vezes que se ouviu somente "Versão Maga" foi em alguns filmes exibidos na Rede Globo no começo dos anos 90, e eles devem ter cortado os 'estúdios da TVS'. (A propósito, TVS significa "TV Studios Sílvio Santos".)

Além do habitual (novelas, desenhos, filmes e séries) a Maga e demais estúdios na TVS também faziam algumas doideiras, como dublar entrevistas... Adivinhe de quemmm é essa idéia, ôeeee ! Muito embora algumas entrevistas não fossem assim, com a entrevista com David Hasselhoff (por causa do seriado Super Máquina) exibida pelo Viva a Noite.

Seis meses depois acaba a Com-Arte e nascem três estúdios:o de Osmiro Campos (futuro dublador do Prof. Girafales), o de João Angelo, e o estúdio Maga, de Marcelo Gastaldi - estes já não eram cooperativas, eram empresas mesmo, que funcionavam dentro da TVS.  Na realidade, a Maga, apesar de contar com algumas vozes pouco ouvidas, tinha o elenco composto pelos mesmos free-lancers que trabalhavam para outros estúdios de São Paulo.

No início dos anos 80 nascia o estúdio Marshmallow, de Gilberto Santamaria (já falecido, cantor da Jovem Guarda e cantor da música "Seu Madruga" do disco do Chaves), Mário Lúcio de Freitas e Antônio Paladino.
Em meados dos anos 80 (eu chuto 1987), em um rompante de Sílvio Santos, o setor de dublagem do SBT foi extinto, porém, os profissionais que dublavam lá passaram para outros estúdios, fora da emissora. O lote de 1988 e posteriores de Chaves foram dublados nessa empresa, um estúdio de gravação que também produzia e gravava LPs e CDs, além de jingles comerciais. O que facilitaria muito a dublagem de músicas, como veremos mais adiante.

A Maga, no caso, passou a trabalhar na Marshmallow só com a tradução e escalação de elenco, e a gravação ficava a cargo da MM, por isso era dito nas dublagens mais recentes: "Versão, Maga. Gravado nos estúdios da Marshmallow". Mas não era uma fusão, as duas empresas trabalhavam separadamente - embora a partir de 1993 passou a ser anunciado apenas "Versão brasileira, Marshmallow". A empresa encerrou suas atividades em 1994, sendo substituída pela Gota Mágica - nome de uma canção de Mário Lúcio - que também encerrou suas atividades no começo do século XXI.)

MAGA: UMA DUBLAGEM... SEI LÁ, MÁGICA!
Costumo dizer que a dublagem da Maga tinha uma personalidade própria, sendo um tanto diferente da dos demais estúdios. Usando efeitos especiais, a sonoplastia reproduzia as condições originais da acústica do som do filme, (até hoje poucos fazem algo parecido em dublagem).
Além de fazer algo que dava uma trabalheira desgraçada na época: dublar as músicas em português, a pedido do SBT. James Spader, em "Action Jackson", cantava I Woke in the Night como Assim não dá, e por aí vai... Há muitos anos os filmes com dublagens dessa época não são mais exibidos pela emissora.
Mas uma dessas dublagens foi para a Globo: a do filme A Vida de Brian, onde Marcelo Gastaldi canta a música "Olhe sempre pro lado bom da vida" (The Bright Side of Life).

Várias dublagens da Maga gravadas na Marshmallow, de filmes longa-metragem e até mesmo de um desenho animado, Super Ted, foram exibidas pela Rede Globo no começo dos anos 90, e chamavam a atenção - pelo menos a minha - pela qualidade simplesmente excelente do som, hoje em dia o único estúdio com qualidade parecida é a VTI Rio. Até me pergunto se alguma coisa dessas dublagens seria em estéreo...

DANÇA DAS CADEIRAS MUSICAL
Uma curiosidade: nos episódios de Chaves do lote de 1992, se ouvem algumas músicas na trilha sonora que não fazem parte do disco do Chaves. São as musicas "Coelho", "Borboleta" e "Porco", de um disco infantil de 1989 gravado nos estúdios da Marshmallow - a diferença é que em Chaves só se ouve o playback das mesmas. Por exemplo, se ouve "Borboleta" quando Dona Clotilde faz um desfile imaginário no concurso de Miss Universo.
Outros dois temas instrumentais de autoria de Mário Lúcio, usados em novelas da Rede Globo, onde ele chegou a trabalhar algum tempo, também chegaram a ser usados na dublagem das séries CH, como "Tenderness", feito para a novela Vamp. Além, claro, de versões instrumentais de músicas do LP do Chaves.

Por outro lado, esse LP tem músicas que fazem parte das séries CH mas em episódios que nunca foram exibidos, como O País da Fantasia, Amigos Palhaços e Barulho da Cidade. O que reforça a suspeita dos fãs de que os dubladores, ao contrário do que eles imaginam, conhecem muito mais das séries CH do que nós!!! [O SBT exibiu "O País da Fantasia" em espanhol, no episódio, em 2009.]

No caso das séries CH, a trilha sonora foi bastante alterada na dublagem. A trilha sonora já chegou a usar MPB e músicas de fundo para comerciais de televisão (como se vê no episódio do Porquinho e do Chaves caçando lagartixas). Por quê? O mais provável é que os episódios mais antigos não tinham a banda internacional - isto é, uma pista de áudio só com a trilha sonora, sem os diálogos. Por isso Chapolin aparece ao som de sintetizador nos episódios mais antigos, e nos episódios dublados em 1990 aparece com a abafada trilha sonora original (além das faixas do disco do Chaves). Mas essas alterações foram feitas de uma forma que combinou perfeitamente com a série. Parte dessa trilha sonora de sintetizador já foi vertida em arquivos MIDI por fãs da série. Na verdade, trilha sonora incidental talvez seja o único ponto fraco dos programas de Chespirito, principalmente dos anos 80 em diante!

Essa trilha sonora "brasileira" foi feita a partir de álbuns de sonorização ou música de produção . Fãs descobriram, em 2009, que dois deles são os álbuns Children, da Bruton Music, e Loony Tunes, da KPM Music - ambas as gravadoras são da Inglaterra, será que é por isso que não se ouve essas músicas em lugar nenhum além do SBT? Mas, ainda assim, algumas músicas ainda não foram encontradas e certamente são de outro álbum como esses. Quem sabe em breve seja possível fazer um fandub com a mesma trilha sonora dos originais... A Bruton já pertenceu durante alguns meses ao saudoso cantor Michael Jackson.

Outra visível intervenção do estúdio aconteceu no seriado Punky, a levada da breca, produzido nos EUA em 1985 e que estreou no SBT apenas 2 anos depois. A música da abertura é diferente da original - "Nunca mais eu vou dizer que essa vida me aborrece, Punky..." - mas por incrível que pareça, é tão boa quanto - ao menos é o que acha a maioria dos fãs.

UM ESTÚDIO VINTAGE?

O estúdio Maga dublava muitos  filmes dos anos 70, como Alligator, ou filmes produzidos fora dos grandes centros produtores dos EUA como dramas, suspense e até filmes evangélicos, sob encomenda de distribuidoras como a Reborn Video (cujos donos eu cheguei a conhecer, é sério). Mas a Maga dublou também alguns filmes dos grandes: Campo dos Sonhos, com Kevin Costner e James Earl Jones - e Gastaldi aparecia como a misteriosa voz que dizia frases enigmáticas como "Se você construir, eles virão". E Papillon, com Steve McQueen e Dustin Hoffman.
(Ah sim, a frase "Maga Produções Artísticas" aparecia nos créditos da série Kiko, exibida pela Bandeirantes em 1991).

O desenho animado galês (do País de Gales) Superted, de 1982, foi a única produção com vários episódios dublada pela Maga a ser exibida pela Rede Globo, por volta de 1992. E o desenho animado dos anos 80 The Raccoons foi exibido discretamente pela Record, em 1995, o curioso é que o desenho também é de dez anos antes e de outro país anglófono que não os EUA, o Canadá.

Gastaldi faleceu de forma um tanto inesperada, vítima de uma pneumonia, causada por uma baixa em seu sistema imunológico em agosto de 1995**, aos 50 anos (praticamente a alguns dias do encerramento do programa Chespirito, no México). Seus colegas, até hoje, lembram-se dele com muito carinho. E devido a "Chaves" estar no ar desde 1984, Marcelo Gastaldi talvez seja uma das vozes mais ouvidas da TV brasileira. E responsável por diálogos como esses:

- Não te preocupes! Tens homens que te defendem! Senão, para que te servem os gladiadores?
- Estão todos atlás das glades!
- E para que te servem os centuriões?
- Servem para que não me caiam os calções!


INfelizmente por culpa do SBT, descobrimos recentemente que eles tiveram que dublar esse episódio duas vezes. Na nova versão (que seria do lote de 1990), Gastaldi diz a fala original: os centuriões servem para servir Coca-Cola à Júlio César. Outro diálogo:

- Ésse bebê agá caca! Ésse bebê agá caca!
- Terra respondendo! Terra respondendo!
- Não temos como regressar! Não temos como regressar!
- Lero-lero, lero-lero!


Outros dubladores, como Guilherme Briggs, nos fazem rir atualmente com suas improvisações, mas nesse estilo...

Mário Lúcio/ YouTube
Marcelo Gastaldi descreve como é a série e comenta a respeito da televisão já naquela época, e qual era a proposta de Feroz & Mau-Mau. Veja no YouTube.

Gastaldi, o Chespirito brasileiro?
Mas o mais curioso sobre o "Maga" vem agora: primeiro, por volta de 1983 ele escolheu os dubladores que iriam dublar "Chaves" a dedo. Nenhum fez teste, todos já eram conhecidos por ele. Boa parte deles, desde a AIC.
E segundo: apesar de ser um profissional, que dubla o que estiver em sua frente, ele acreditava e apostava no sucesso das séries de Chespirito, gostava daquele estilo de humor, simples e sem apelação. A ponto de até tentar um caminho próprio... Por volta de 1990 ele criou um projeto de um seriado de TV produzido pela Maga, Feroz e Maumau.
Feroz (Carlos Seidl) é um bandido de casaca e Maumau (Gastaldi) é seu fiel e atrapalhadíssimo ajudante. Quase como Chaves e Seu Madruga - a diferença é que agora eles estão na frente das câmeras.
Somente um piloto foi gravado a toque de caixa, em 1991, no colégio onde seus filhos estudavam. Trechos desse piloto foram mostrados no evento "Festa da Boa Vizinhança" em São Paulo, no qual eu estive presente, e posso dizer que F&M tinha um humor como o do Chespirito, com alguns toques de humor britânico - claro, dois filmes do grupo Monty Python (Jabberwocky e A Vida de Brian) chegaram a ser dublados pela Maga. E eu achei sensacionais! E olha que não é fácil de adaptar humor britânico... Se fosse levado adiante, quem sabe F&M seria um dos maiores sucessos entre os programas produzidos pelo SBT.

O programa chegou a ser aprovado, mas empacou em diferenças financeiras, ademais Silvio Santos nunca ter chegado a assistir ao piloto. Apesar de não ter ido pra frente, Gastaldi até que conseguiu algumas portas abertas a mais, passando a ser diretor do programa que Simony fazia na emissora.

No final de 2006, Mário Lúcio de Freitas, que dirigiu o piloto da série, disponibilizou a íntegra de "Feroz e Maumau" em seu site na Internet. Fazem parte do elenco também Osmiro Campos e ele, Mário Lúcio.

   Quiquinho é o maioral!   E O QUICO? O QUICO NÃO FICA ATRÁS!
Nelson Machado, dublador dos personagens de Carlos Villagrán, é um dos coordenadores do Fórum Dublagem no Brasil. Ele chegou a traduzir alguns episódios de Chaves (algumas das tiradas são dele) e até já gravou um disco por volta de 1995, a gravadora Paradoxx lançou um CD chamado "Discoteca do Kiko" (escrito com K desde que Villagrán saiu de Chaves), para acompanhar a vinda de Carlos Villagrán ao Brasil.
Em 1996, teve o privilégio de conhecê-lo quando veio ao Brasil, no programa Jô Soares 11:30. Mas eles de certo modo já se conheciam, Villagrán chegou a conversar com ele por telefone em 1994.
(Em "Viva Kiko", mais algumas informações interessantes sobre o dublador do Quico, tanto em "Chaves" quanto nas outras séries solo com o personagem, tanto na Band quanto em lançamentos recentes para DVDs.)

Além de Kiko, outras dublagens que ele gostou muito de ter feito foram de Darkwing Duck (personagem da Disney) e Robin Williams, em filmes como O Homem Bicentenário.

Nelson Machado lançaria em 2005 o livro Versão Brasileira, que versa sobre dublagem - curiosamente lançado por uma editora própria. Algo que se expandiria para outros horizontes, com o lançamento da TV Capricórnio, que em 2009 ensaia uma volta. Ele também escreve um blog, atualmente.


Esta é a capa de "Discoteca do Kiko", gravado com Nelson Machado em 1995. O CD, inclusive, teve a produção musical do DJ Iraí Campos, um dos mais conceituados do Brasil! A Paradoxx é uma gravadora especializada em dance music. Para maiores informações sobre este CD, veja o site Chespirito HP.

"A gente já estudou,
a gente já escreveu
Libera essa, mamãe,
que esse programa é meu
E se quiser assistir,
é só deitar aí no chão
Que o Kiko é campeão"

CD "Discoteca do Kiko" - Paradoxx Music (1995) - Fornecido por Nelson Machado
Este outro é o CD "Fiesta con Kiko", gravado por Carlos Villagrán em 2003.

Seu primeiro disco solo foi gravado ainda em 1976 (o da música "Chusma Chusma"), ainda sob o nome Quico, e em 1977, Villagrán fez uma participação especial em outro disco de um grupo desconhecido no Brasil, "Las Ardillas" (Os Esquilos, versão latina dos Chipmunks, que nada mais é do que cantores desconhecidos que tem suas vozes aceleradas - aqui no Brasil haviam os Três Patinhos, que era exatamente a mesma coisa).
Foi um tremendo sucesso e começou a consolidar a fama do Quico, que ia crescendo, segundo Carlos Villagrán, devido ao jeito exagerado do personagem.
CD "Fiesta con Kiko" - Fornecido por Nelson Machado

Veja na parte 2: Como começou Cecília Lemes? Como são as vozes originais dos personagens? E ainda: Clube do Chaves com
Cassiano Ricardo:. Clique aqui

agradecimentos
Fã-Clube Chespirito-Brasil
Mário Lúcio de Freitas
Nelson Machado
Sílvio Navas

Marcus Anversa
ThomasH
uilu
MC Jay-X
Rodolfo Albiero
Blogaritmox
Arlindo Silva

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